Ás 18 horas, a aldeia de Vale da Trave, sentiu um alvoroço estranho, era sábado e os dois cafés que existem na pequena aldeia, com cerca de 100 habitantes, estavam fechados.

Os habitantes da aldeia estavam na sua maioria a descansar porque a tarde era solarenga. Os carros começaram a chegar junto à bonita lagoa, inaugurada em 2014. Esta lagoa é abastecida por um furo artesiano com 293 metros de profundidade, serve a população gratuitamente com o intuito de alavancar as hortas familiares, e agropecuária. É muito importante para o abastecimento de água aquando dos incêndios florestais.

E pasmem-se, um dia destes estava eu, Helena Caetano, gerente da Amor Tejo, a relaxar pelas 21h, quando observei uma raposa a dirigir-se à lagoa e a beber água!

Rumamos serra acima, na direção do planalto de Santo António, um local ainda hoje habitado, que em outros tempos por ter terrenos férteis atraiu alguns moradores.

No planalto ainda é possível observarmos as pedreiras de calçada à antiga portuguesa.

Pelo percurso conversamos sobre factos da aldeia, nomeadamente a marca registada Terra das Ervanárias.

Conta-nos a Clarinda Paixão e o seu marido José Manuel, gerentes da ervanária, que tudo começou com uma empreendedora, a tia Celeste (avó da Clarinda), que andava de aldeia em aldeia a comprar plantas espontâneas que cresciam na serra. Vendia estas plantas a ervanárias de Lisboa e Porto, que as transformavam e comercializavam.

Estávamos em meados do século XX e o genro da Tia Celeste compra a Antiga ervanária da Anunciada, deixando no Vale da Trave um das grandes empresas. Em 1980, com a entrada de uma nova geração familiar, desenvolveu-se a importação e exportação dos produtos. Deste modo, esta empresa foi a primeira em Portugal a iniciar relações comerciais diretas com a Índia. Além dos EUA, as primeiras exportações foram também para o Reino Unido, começando um progresso cada vez mais acentuado, que permitiu a expansão para outros países, como Alemanha, Espanha, França e Angola.

Sempre me recordo de na aldeia todos saberem na ponta da língua o valor das plantas, o que curavam e tratavam, desde chás a mezinhas, todos nós que aqui vivemos estávamos habituados à forma milagrosa das nossas avós curarem algumas das nossas doenças. E assim se transformou a aldeia na “Terra das Ervanárias”.

A aldeia tem uma dinâmica diferente, a população jovem e menos jovem, num encontro intergeracional, faz acontecer, e por isso, à desenvolvimento. Contam também com o Baldio do Vale da Trave, e outras organizações que colaboram para que as tradições se mantenham vivas.

O ex-libris deste final de dia era a recente lagoa, inaugurada antes da pandemia e com uma função idêntica à atrás referida. Apaixonamo-nos pelo  oásis no meio da serra.

Ali fomos brindados com uma surpresa, preparada pelas mulheres daquela aldeia. Aqui as mulheres empoderam-se uma às outras, e nós fomos brindadas com um chá da ervanária local, um bolo caseiro, umas broas deliciosas, confecionados em forno de Lenha pela Madalena Durão, um delicioso melão preparado pela Graciete. A Maria Alice, com os seus mais de 60 anos e um sorriso contagiante ajudou a preparar a mesa, improvisada na carrinha.

Fiquei de lágrima no olho, como gerente da Amor Tejo.

No regresso, de coração cheio, já o sol ia para lá de posto, contamos a história do Gruta do Pena. O José Manuel contou como o desciam por cordas, aquando da sua descoberta. Passamos pelo trilho das azinheiras e do pinhal manso e chegamos à aldeia de coração cheio, pela hospitalidade e simpatia com que fomos acolhidos.

Prometemos regressar no último sábado de cada mês!

Querem vir connosco conhecer esta fantástica aldeia, as suas plantas espontâneas, os muros de pedra e o seu vasto património material e imateria?

Inscrevam-se no  facebook.com/amortejotours/

www.amortejo.pt

Podem visualizar este e outros percursos em www2.icnf.pt/

https://www.facebook.com/baldio.valedatrave

https://portalalcanede.pt/obras-de-requalificacao-da-lagoa-do-vale-da-trave-inauguradas-oficialmente-a-22-de-junho/